Foto em close com macro, Nikon

Lírio rubrum, autor: José Carneiro Leão

O meu primeiro microrromance chamado “Jogando tudo no 140” é construído numa estrutura de 140 capítulos, escritos e publicados diariamente no Twitter e no Facebook. A ideia original foi de Wilson Freire, e digo original com certeza, pois foi o primeiro a convidar na divulgação e no corpo de seu microrromance “140” todos os escritores a escreverem juntos. Com a metáfora de uma Swinger’s House – tipo da cena literária atual – servindo de palco para a construção de várias histórias em paralelo, ao mesmo tempo autorais e colaborativas.

Jogando tudo no 140″

Capítulo I

Ele já estava lá, atrás do bar, preparava tudo que pediam, base da cachaça ao Vermut, ia da letra ao chute.

Capítulo II

– Sim, senhor; – Sim, senhora. Pois não! Agora mesmo, senhor. Pronto. Bloco de notas, iphone, webcam, espelho falso, para registrar tudo.

Capítulo III

– Ela, morena: – Oi, sou nova aqui, me ajuda…- Claro, jogar é fácil, basta servir e escrever…- Servir? – Sim, tudo a todos.

Capítulo IV

– Escrever? – Sim, o que gosta de ler, ou de ver. -Voyeur? -Sim, por que não? Gosta de ver e aprecia fazer, joga quem pode e tem.

Capítulo V

– Vc é Crupiê? – Ou Barman, michê, cafetão, pode chamar do que quiser, não importa, sou mesmo é jogador e aposto alto, vou fundo.

Capítulo VI

– E o jogo? – Já começou há 19 dias, regras no @freirewilson, hora de vencer medos, vergonhas, superar limites, escrever todo dia.

Capítulo VII

– Como vc conseguiu? – Usando a chave-mestra, fuçando. Cascavilhei, surfei na onda bacana do cybertexto, li, li e li! Não vacilei.

Capítulo VIII

– Mostra? – Tudo? Então venha pro lado de cá do balcão. – Vc está nu!! – Claro! De que outra forma escrever? Leia na tela, use.

Capítulo IX

– Desejo placenta – Este não é meu, é do Mestre, todos passam por isso, ele disse, frio e sede perto da prima virada, longe de si…

Capítulo X

…Escrever como lavadeira no riacho: torce, bate, enxagua, torce, seca, bate e torce mais, como diria o de Quebrangulo, rei do 140…

Capítulo XI

…Enquadrados, quatro paredes: justiça, liberdade, fama e literatura. Há saída, tecle ESC se quiser, mas tente jogar, divirta-se.

Capítulo XII

– Ela: -Nunca escrevi mais que pouco. Gosto de poema, filme romântico, novela, música. Posso começar cantando uma moda no twitcam?

Capítulo XIII

– Ou recitando. Nem precisa ser ao vivo, grave o broadcast e deixe no seu perfil o link, cada acesso é ponto. 140 é multiplural…

Capítulo XIV

…Multimidia, literal, o 140 vai elevar a cena do escritor marginal, alavancar o sucesso editorial, brilhar do interior ao litoral.

Capítulo XV

– Ela: – Chega! Quero ação>webcam ativa, meia luz. No palco: banquinho, violão e pole-dancing. Close, cabelos escondem o rosto.

Capítulo XVI

Na platéia, homens se deleitam, show, sedução. Ela, cabrita arteira, brinca de olha-não-toca arrodeando as mesas, lenços no ar…

Capítulo XVII

Ele, atrás do bar, observa, rubor e coração acelerado, apostas altas na mesa, fichas tem, pagar pra ver ou correr, eis a dúvida.

Capítulo XVIII

Cobiça evidente, paixão, símbolo da dor, o amor é o maior risco do jogador, a extraordinária armadilha da imaginação, jogo quente.

Capítulo XIX

Jogo do amor é clichê, doentio. Amor sem jogo, a dois, é de se fazer um, divina união, a verdadeira certeza da vitória no fim.

Capítulo XX

– Ele: Olho no olho, qual seu jogo? Quem ganha se eu perder? Quem perde se eu ganhar? Você, você, o que quer de mim, dama de copas?

Capítulo XXI

– Ela: De ás a dez, espadas, venço aqui, perco adiante e ganho de novo, no fim. Surpresa do amor não é pra mim, quero leve petra…

Capítulo XXII

…O amor como sol que cega, tanta luz, retina espelha, brilho desfocado no escuro dos olhos persiste, flutua, dorme&sonha, vem.

Cap. XXIII

Ele: – Cordão de força e três dobras, amarra não desata, seremos nós assim, mesmo aqui neste turbilhão de gente, palavras e vícios…

Cap. XXIV

…O amor como amálgama de cimento&areia, ferro&pedra, fincado no alto do chão da rocha, monte firme, de lá serviremos tudo a todos.

Cap. XXV

Telhado de vidro da Swinger’s house, conexão wireless*broadband, olhos nos oito cantos do mundo inteiro e google – está consumado.

Cap. XXVI

Ela: – Sim, digo sim, brado alto daqui de cima, consumado! Sem medo do ridículo, faremos o fogo consumir toda carne virgem&pura.

Cap. XXVII

O vício da minh’alma feminina é querer-se sempre plena, qualquer gota que falte motiva dúvida, uma gota a mais transbordo em lágrimas.

Cap. XXVIII

Ele: – Aceito viver equilibrista na lâmina afiada de su’alma quente, pelo prazer do aconchego, pelo risco em si, por jogar.

Cap. XXIX

Que é o prazer senão a alegria fulgaz do risco, da dor contida, do sucesso, da carne, como um raio que rasga o céu leste&oeste?

Cap. XXX

Aconchegar para findar o desasossego, acalentar os sonhos, é remédio bom, faz serenar na noite fria, sopra a brisa da manhã.

Cap. XXXI

Núpcias pedem viagem de mel, a barco partiram para a Ilha das Taineiras onde reina o albatroz azul, no Largo da Quitanda, João…

Cap. XXXII

De lá da Ilha, na sombra das amoreiras negras, ouviram a sabedoria do homem que dizia:   – é o costume que amarra o pensamento.

Cap. XXXIII

Da sombra à penumbra do candeeiro no quarto confundiram línguas, pernas, cabelos e pelos, conheceram-se, entraram-se, viciaram-se.

Cap. XXXIV

Emprenharam-se, embrenharam-se nas ruas a DIZcrevER cenas e pessoas, o chão de pedras inparalelas, tortas, escorregadias, o mar.

Cap. XXXV

Na beira duma casinha um menino no colo da mãe, assustado com o pai bêbado a gritar lá de dentro: – VADIA! FORA!RUA!VAI!MORRE!

Cap. XXXVI

A mãe a chorar baixinho, derramando na pequena face as lágrimas; crianças choram com olhos, boca e nariz, suam quando choram.

Cap. XXXVII

Beberam num bar da praia a dor binominal, entre umas e outras promessas de não fazer com o outro, voltaram ao quarto e juraram gozos.

Cap. XXXVIII

Entre um e outro saiam ao banho no mar calmo, pequena praia entre pedras, um resto de barco encalhado no meio das pedras, lua cheia.

Cap. XXXIX

Plena agora de alma e útero, ela estava feliz, e ele, aflito e sossegado, vivia a plenitude de ser O homem que a fez assim.

Cap. XL

Escrever, escreveram…mas e para PUBLICAR? Quem quer dar tostão? Doutro jeito o sustento seria voltar ao palco e ao balcão.

Cap.XLI

Por demanda, self-publishing, eletronico, editorado, quem vai ler? Quem vai comprar? Mister é DIVULGAR! O custo sai por conta.

Cap. XLII

Bebem como colibris nas fontes das letras em versos e prosas, saciam a sede atroz, livres de esporas e selas cavalgam sobre os livros.

Cap. XLIII

Nada pode detê-los, talvez o vinho ou a fome, ou o esquecer de promessas e anelos, cair e não levantar, deitar ao chão no estrume.

Cap. XLIV

Dias são eras, interstício gestando a cria, chega a hora de romper membranas e na enxurrada de amnio fazer brotar nova vida.

Cap. XLV

ABUNDÂNCIA – Leite no peito e chuva neste verão; ESCASSEZ – Água no leito do Pajeú e vergonha na cara da TV. Balé do cisne negro x cisne branco.

Cap.XLVI

Ela – Mama filhinho, mama e cresce sábio e belo. O aracati vai aliviar o calor, a cajarana dar sabor e o murici dá toda hora, ano todo.

Cap. XLVII

Ninguém dá nada de graça, nem a mãe o leite, nem o pai a labuta, cada moeda tem dois lados, cada pessoa ama e mata, sempre tem volta.

Cap. XLVIII

O bem e o mal andam lado a lado, o limite é tênue, a corda é bamba, pra cair basta está de pé, a vida boa é o equilíbrio conquistado.

Cap. XLIX

– Ele: – Capote disse pela boca do assassino Beausoleil: – “Bem e mal? Tudo é bom. Se acontece, deve ser bom. Caso contrário,…

Cap. L

…Caso contrário, não estaria acontecendo. É só o fluxo da vida. O movimento das coisas. Eu sigo o fluxo. Não o questiono.” Eu concordo.

Cap. LI

Ele: – E vc acha o q? Ela: – Discordo. Isso me soa estóico, passivo demais, é cômodo para ele pensar assim, como matar pode ser bom?

Cap. LII

Ele: – Nietzche diz que é preciso aceitar o destino com simplicidade infantil, matar pode ser bom na guerra, por exemplo. Ela: – Não!

Cap. LIII

Na guerra, é uma questão de escolha, ou mata ou morre, situação limite e ainda tem as ordens superiores, de estratégia. Ele: – Exato!

Cap. LIV

A vida é uma guerra, cada um concebe a sua. B. estava em guerra contra a imoralidade dos porcos de LA e em defesa da raça ariana.

Cap. LV

Tinha sua estratégia, tinha seu exército de lacaios, que chamava de família e tinha o general que liderava tudo. Como uma máfia.

Cap. LVI

Ela: – Se cada um fizer suas próprias leis, então estaremos numa anarquia. Nossa sociedade é organizada, temos leis, graças a Deus!

Cap. LVII

Na praça central, leem, conversam e observam o menino brincar. Por perto, um bandido à espreita. Prepara o bote, mira o menino.

Cap. LVIII

Ataca. Pega pelo braço, ameaça com uma faca, quer $$. Se não tem, providenciem. Ele, estático, barata. Ela contra-ataca, leoa.

Cap. LIX

Unhas e dentes nas costas do atônito ladrão que reage, solta o menino, empunha a faca, gira o corpo e enfia no flanco direito dela.

Cap. LX

Ela cai, sangrando. O meliante foge. Ele com o menino nos braços, chora. Ela grita por ajuda, ele acorda e acode estancando o sangue.

Cap. LXI

Ela: – Vou morrer! Ele: – Não! Estranha ausência da convicção macula a negativa dele, ela percebe e entristece, falece fria e só.

Cap. LXII

FUNERAL, o Pastor: – Os desígnios de Deus são bons, positivos, aos nossos olhos podem parecer cruéis, mas serão para o bem, afinal.

Cap. LXIII

Entregou o próprio Filho, inocente, à morte, e morte de cruz. Na lógica humana parece um mal, mas é bom, é para o bem vicário.

Cap. LXIV

Já o filho do viúvo nem chora a saudade, ainda marcado pela visão de ontem – a mãe ferida – e confuso com a de hoje – o pai chorando.

Cap. LXV

Dói a perda. Necessária? O adoecimento do mau dia para o relógio, a dor esmaga e o afunda mais no charco de sangue e lágrimas.

Cap. LXVI

Tanta lágrima, tanta chuva, cavam na mente um vazio abissal, nada flui do vácuo sem palavras, um tronco oco e podre sem raízes.

Cap. LXVII

Poeta errante, navega sem rima, sem rumo, ritmo acanhado, entre os viventes não tem mais quem o ouça. S. Diz: – existe, a obra resiste.

Cap. LXVIII

Como C.S. Lewis, descobriu em si desejos impossíveis e concluiu que não foi feito para este mundo. Por querer, cortou bestas.

Cap. LXIX

1. Males que se transformam em bens; 2. O sol nasce para todos; 3. O caminho está pronto. Arranca-lhes as cabeças! Morde!Queima!

Cap. LXX

Como Perseu, não petrificou, retornou ao lar, louros&loas, encontrou nas veias sangue quente para escrever mais uma linha de 140′.

Cap. LXXI

Enquanto servia gotas, colheu frutos na web e nas estantes virtuais, foi recompondo a opereta singela de sua vida, risos&lágrimas.

Cap. LXXII

Lehar e Strauss II embalaram o ritmo dos toques no teclado, lembrou das marchinhas antigas dos carnavais cariocas e seus dramas.

Cap. LXXIII

Raros finais felizes, muita alegria nos salões, incomparáveis harmonias, rimas inesquecíveis, vaidades de poetas&musicistas.

Cap. LXXIV

Dos dramas surgem as lendas. Borges conta do rei caído em batalha – resgatado pela dama com pescoço d cisne, viveu como rei-abade.

Cap. LXXV

E as lendas são mutantes no tempo, o papa-figo leproso que comia para se curar virou o palhaço do coqueiro que rouba pra vender.

Cap. LXXVI

Mitos também se transformam – Júpiter metamorfoseado em cisne deflorando a ninfa Leda aqui é chamado passaralho ou c.de.asas.

Cap. LXXVII

A perna cabeluda que desgarrada do corpo aterroriza à noite chutando os traseiros teria sido um sargento da repressão de Vargas?

Cap LXXVIII

E Cumadi Flozinha, mulher traída? Ainda vive a proteger as caças com seus assovios assustadores, nem adianta fumo ou mingau.

Cap. LXXIX

Recife tem a praça chora-menino, há 200 anos, onde à noite chora o fantasma de um menino enterrado vivo ali, na setembrizada.

Cap. LXXX

E o Capibaribe, o cão sem plumas do Cabral, continua assombrando com os lamentos das almas penadas dos que pularam de suas pontes.

Cap. LXXXI

Tem as caveiras de mulheres outrora sensuais que encantam dos Dois Unidos aos Afogados e os fantasmas nos camarins do Sta Isabel.

Cap. LXXXII

Apavorado, o escritor arregala os olhos e nada vê, escuro cenário de sua solidão, fantasmas tentam expulsá-lo dos livros à rua.

Cap. LXXXIII

O órfão de mãe pede colo, ele dá, pede comida, ele serve o que tem, tira da própria boca, chora, quer dormir, nina o infante.

Cap. LXXXIV

Alta madrugada, os murmúrios da noite, misteriosos sussurros da Torre, volta a buscar guarida nas letras vivas dos companheiros.

Cap. LXXXV

Ele encontrou Jonhson e conversaram sobre o enredo do escritor solitário >”O Esforço, A Inveja, o Querer, o Mecenas e o Cárcere”.

Cap. LXXXVI

O ESFORÇO – Como poderia haver prazer em ler algo escrito sem muito esforço e trabalho? Folheia-se meia biblioteca = um livro.

Cap. LXXXVII

A INVEJA – Como o fim de Galileo, a inveja com uma de suas máscaras – a ignorância! Isso tem tantas outras mesquinhas palavras.

Cap. LXXXVIII

O QUERER – Mais ainda, necessitar! Desejar! Produz anseios, medo de passar e não fazer, com olhos nas letras não ver sabedoria.

Cap. LXXXIX

O MECENAS – o próprio Johnson definiu: “geralmente um desgraçado que financia com arrogância e é recompensado com adulação.”

Cap. XC

O CÁRCERE – Da alma, sem muros ou grades de ferro, o escritor escraviza a si mesmo pelas argolas dos outros quatro já ditos.

Cap. XCI

Encarcerado, sobremodo cansado, com inveja, só se move pelo desejo de ver os filhos, homem&livro, como flores do jambo em janeiro.

Cap. XCII

Auto-exílio forçado, confinamento, uma solução radical, isolar-se para produzir cada vez mais, tal qual gado de leite num cercado.

XCIII

Decide escrever um diário, anota os sonhos, enfrenta os medos, registra as fontes, completa vinte laudas/dia, entrega e publicam.

Cap. XCIV

SUCESSO! Romance vende bem. Entrevistas, rádio/TV/Jornal/Blog. Palestra no café. Ele (embriagado, deitado, livro no peito, na cama): – Ufa!

Cap. XCV

Vender bem no Brasil, escritor da terra, é vender dez mil, na Europa, um milhão, nos EUA também, como ser top ten, best seller?

Cap. XCVI

Traduzir para o espanglês, vender por lá, parceiro editor multinacional, assinar contrato, jogar alto, arriscar e decuplicar vendas.

Cap. XCVII

Viagens, mais talk shows, noches de autografos, contatos, cantos de sereia, possibilidades, sentir uma argola no calcanhar.

Cap. XCVIII

Ele: – cadê a chave-mestra q não funciona nessa cadeia? O filho com 12 anos se agarra ao chão, tal qual arraia no fundo do mar.

Cap. XCIX

– Preciso da força de oito braços para arrancar o bicho da ostra, não desperdiço preciosa companhia; vou ganhar a quedadebraço.

Cap. C

Oportunidades passam, esta ele agarrou. Ele (em pensamento, embaixo da aba): – Tenho pouco na mão, mas se dois correrem, ganho.

Cap. CI

Olhos de lobo, olhar no infinito atrás do oponente, o chapéu de gangster, a mão calma sobre a mesa gira o copo de uísque, espera a resposta.

Cap. CII

O menino: Eu desisto, pai. A babá: – Corro. Ele leva o pote, uma vitória alviçareira, pensa. Correr atrás de realizar o cacife e a aposta.

Cap. CIII

O patrocinador: – Garanto moradia e mesada por dois anos = dois livros prontos. Ele: – Feito! Quando vamos? Por mim, agora é a hora.

Cap. CIV

O primeiro do contrato, de capa a capa em 140 dias, cenas de NYC, ganha ensaios e crônicas, bilíngue, os olhos que leram: cem mil pares.

Cap. CV

O segundo livro patina no gelo do Central Park, faz poeira, dança nos porões da Broadway, trava no fechamento melancólico e árido.

Cap. CVI

Ele: – sei que estou atrasado, deixe-me em paz. O patrocinador: – sim, pague o aluguel com as merrecas de direitos. Ano difícil, babá escapole.

Cap. CVII

Muda daqui prali, de lá pracolá, o menino de escola em escola é sempre o chicano desconhecido, completa os dezesseis, triste.

Cap. CVIII

Parte para a rodada de fogo, o jogador não perde esperança, dois anos morando no Queens, investe num promoter latino, lança.

Cap. CIX

Os dados giram, pulam, rodopiam e param com par de ases. Gracejos e sussuros na biblioteca são proibidos, o silêncio tem que ser total.

Cap. CX

Sepulcro caiado, bolso vazio, o promoter fugiu, a casa caiu, parte para o self publisher, disciplina para si, bico de tradutor&aulas.

Cap. CXI

Ensina portugues sem saber pra quem nem sabe onde é o Brasil. Enfurna-se num estúdio B para legendar filmes C, port&espanhol.

Cap. CXII

– Ele: – Como P. Almodovar produziu essa gosma? Legendar Ação Mutante, de 1993 em Port&Espanhol. Tarefa dolorosa, haja estômago.

Cap. CXIII

– Ele: – E um dos Cohen dirigindo ‘A ambulancia’?! O irmão da J. Roberts é o astro do filme. Meu Deus! Acuda-me dessa paranóia de NYC.

Cap. CXIV

Junta o $$ do contrato com a Smashincorporate, publica como o tempo dos dados no ar, girando, resta torcer pelo sete puro, a mina de ouro.

Cap. CXV

O tempo é o inimigo #1 do ansioso, falta a paciência, o sexto segredo do sucesso. Diria Coker que a decadência viral o assolou.

Cap. CXVI

Viralidade, isto o que BSA oferece com suas imponentes librarías e sua gente. Recomendam-no calles, plazas y los camiñitos de boca.

Cap. CXVII

Cai uma nevasca furiosa em junho. A neve é manchada de sangue na Plaza Mayo. A camera de vigilância flagra em quatro quadros.

Cap. CXVIII

Nos primeiros: dois homens encapados e de chapéu esbarram, frente a frente, cabeças baixas. Um caiu de joelhos no chão.

Cap. CXIX

Nos dois últimos, slow motion: o que caiu levanta e tonteia enquanto o outro atravessa a rua correndo. Resta uma mancha de sangue na neve.

Cap. CXX

E a faca atirada não afunda no gélido de La Plata, a lâmina ainda morna esfria o sangue que estanca na veia do matador, ele hesita e vai…

Cap. CXXI

…Vai aonde? Não sei. Branco, fade out. O filho chega calado e tranca-se no quarto, durmo na sala, deixo-o passar, amanhã talvez.

Cap. CXXII

– Nem tango nem folk, é rock e batestaca, odeio cultura&tradição, ainda mais se estrangeira, tô fora, pai. Vou voltar pro BR.

Cap. CXXIII

Ele: – Desde que chegamos aqui, não há sorriso em você, nem emoção alguma, só um soturno rancor e cinismo, culpando-me de sei-lá-eu.

Cap. CXXIV

O FILHO: – Não vejo sentido fugir da casa-pátria-mãe, viver aqui e ali, mendigando respeito, apostando alto demais. Envelhece cedo.

Cap. CXXV

Ele: – busco leitores vorazes aqui, a Paris da Sudamérica, meca literária de Borges e Cortazar, fluxo normal das letras.YO SUEÑO GRANDE.

Cap. CXXVI

O FILHO: – você é jogador contumaz, esquece de tudo&todos só pelo prazer de jogar/escrever, escritor compulsivo e solitário…

Cap. CXXVII

– …ora pende para o estrondoso e estridente, ora inclina-se sobre a razão e o equilíbrio, mas gosto quando faz poesia das letras.

Cap. CXXVIII

Ele: – as flores do jambo pintaram o chão de fios&pétalas vermelhas, alguns tons porfíricos, estou feliz por ver seu brilho.

Cap. CXXIX

O filho: – Não sou como flores no chão, sou fruto maduro no pé. Ele: – Nem tanto, mas pronto, talvez, para o risco de voar.

Cap. CXXX

Menino-homem pegou a estrada, deixou um bilhete, só agradeceu pelo pão&colo do pai, e disse: – Fui cuidar de mim, volto p/ BR.

Cap. CXXXI

Mais um dia longo como da mulher que partiu, aquele passou, esse também passará, tão certo disso que nem lágrimas fingiu…

Cap. CXXXII

Guardou o bilhete na página 85 do tomo I dos ensaios de T.C., o trem das musas, ali teria companhia mesmo abaixo de zero.

Cap. CXXXIII

Freneticamente escreveu, acabou, ponto final na trama à base de tangoYsangre. Editores: – No! Punzante dolor en el pecho, perdió.

Cap. CXXXIV

Ele: – VOLTEI RECIFE! Mergulho nas águas sujas do Capibaribe, nu! Quero meu balcão da Swinger’s house de volta! Bisbilhotar…

Cap. CXXXV

“Não há mais ninguém entre os vivos a quem eu me atreva a dizer meus sentimentos”. Pq cairam em meu colo tais dores? O que há?

Cap. CXXXVI

O filho: – Nosso lugar é aqui, onde tudo começou, tem muita gente da terra querendo ler e ouvir O cara do bar e sua história

Cap. CXXXVII

Ele: – ESO ES. ALL RIGHT. Nunca me arrependo, crescemos muito construindo tijolo por tijolo desta torre de vigia. AVANTE!

Cap. CXXXVIII

O Mestre: – …caminhamos pelas ruas virtuais. S/ follower algum. Deixa a poeira baixar e ficar ruminando o que foi tudo isso.

Cap. CXXXIX

EPÍLOGO – Quando o capitão aponta a espada e força-o a caminhar na prancha, olhos vendados, rumo ao desconhecido além…

Cap. CXL

– …eu sei, sempre soube, nasci só, solitário sou, jogador ou escritor, vendaram-me os olhos e na escuridão enfrento a verdade ENFIM…e

Fim 

 

 

4 Comments Showing 50 most recent
  1. Diana Jurema-Morgan

    Maravilha!

    • José Leão Filho Post author

      Continue acompanhando Diana. Ainda vai melhorar!

  2. Luciana Carneiro Leão

    Zézinho,
    Iniciei a leitura do seu microromanace. Já estou gostando. Mistura de uma leitura atual, com fatos que nos levam também a memorizar. Bem legal. Alguns trechos com traços de humor, em??? Na continuidade, darei mais pitacos. Parabéns!

    • José Leão Filho Post author

      Oba! Obrigado! Vá lendo. Beijos.

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