Exercitando cordéis

Não é fácil escrever na forma de cordel, gênero popular em outros tempos que está ganhando novo fôlego ultimamente. Não sou cantador ou repentista, nem sei tocar viola ou pandeiro, nem tampouco triângulo. Daí, dessa ausencia do talento musical, minha falta de talento para a métrica e rima fechada. Sei que meus escritos tem ritmo, não sei tocar, mas gosto de ouvir, sei ouvir. Aliás, passando uma vista no meu gosto musical – jazz, rock, bossa-nova – entendo meu estilo livre preferencial. Porém, em toda roda de conversa sobre literatura, escuto sempre da importancia de exercitar o metro e a rima na busca do estilo livre. Custei para enxergar que precisava ser escravo para poder tornar-me livre. Com o fim de um trabalho de sucesso, como o “Jogando tudo no 140′”, estimulei-me a começar um novo. E o novo será um exercício de escravizar-me aos mais de dez tipos de métrica e rima dos cordéis. Sem pretensões maiores, tentarei publicar um cordel por semana. Quem quiser colaborar com temas, motes, versos e rimas sinta-se a vontade. Quem quiser me acompanhar nas pesquisas que fiz, acessem http://www.ablc.com.br/popups/metrica/metrica.htm

http://www.compadrelemos.com/

 

O desafio de ser filho num mundo em que mulher não quer ser mãe

Que diabo é isso?
Mundo sem mãe nem mulher,
Mulher que nem homem,
Sem mama pro rebento que vier
Como se cria na rua
Um fio que ninguém quer?

Terra louca sem dó
Se a gala quer dar
Vida ao óvulo só
Pra que capa a calar?
Tomar a pílula
Pra não engravidar?

Quando vem acidente
Emprenhar sem querer
Tem pílula da urgência
Clínica pra interromper
Ilegal, anti-cristão
O aborto há de ser

Mulheres hoje correm
Trabalham que nem nós
Os homens de sempre
De caça, de luta e paiós
Vivem de querer ser
E ter iguais direitos e tais.

Primeiro a carreira
Depois o sucesso
Querem tanto subir
Não importa o acesso
Nem o caminho a seguir
Tudo sem nó em processo

Escolhem tanto a grão
Um homem pra viver
Que passam o tempo, vão
Trocando sem saber
Seis por meia dúzia
Buscam um pai eleger

Tudo isso sem falar
Naquelas que por opção
Nem de homem gostam
Ser mãe pra elas questão
De ordem, bandeira, lutam
Ai só inseminação

Imagine agora Deus
Querendo mais criatura
Amando viver na terra
Novo filho, exercer cura
Sem ter útero pra ninho
Ter que esperar mesura

Tal alma pequenina
Na fila da imensidão
Quer ser filho no mundo
Da humanidade cidadão
Quem sabe até ser herói
Dos homens salvação.

Conversa vai, conversa vem…Freud explica?

Conversa vai
Tema é amor
Ternura atrai
O sexo conduz
Fina fera flor
Em busca d’luz

Conversa vem
Intimidade
Lubricidade
Domínio também
Se Freud explica
Mulher complica

Conversa vai
Homem egoista
De macho extrai
Essencia mista
De insegurança
E fria conquista
Por medo avança
A presa subtrai

Conversa vem
Mulher submissa
Seduz se convém
Controla, atiça
No fim quem manda
Agora ciente
É ela somente

Assim vai e vem
Assunto sem fim
O certo porém
É que para mim
Mulher é força
Tração do amor
Homem s’esforça
Pra ser o pintor.

Tentando um Galope à beira do mar

Usando a métrica e rima da Décima Clássica – ABBBACCDDC

O casamento dos Cordeiro.

Eta casamento retado dos Cordeiro
Cordeiro é o pai e é o filho
É o noivo e leva o novilho
Pelo céu ninguém há de tanto brilho.
De ver a noiva ataviada no outeiro
Não perco, serei o primeiro a chegar
Nas bodas celestes tenho meu lugar
Como Oséias e a prostituta
É Deus e a humanidade corruta
Cantando galope na beira do mar.

 

Adão e Eva, Abraão e Sara
Davi e Mical ou quem mais que seja
São tipos do altar que Ele deseja
O Cordeiro, pai e filho, almeja
O casamento perfeito na seara
Para o criador, a criatura amar
A criatura, ao criador adorar
Como Deus amou o mundo inteiro
Em vicário fogo se deu primeiro
Ouve-se hosanas na beira do mar.

 

Cordeiro genial, é o Espírito Santo
Convidar-me, pobre pecador
Imundo que aos outros trago dor
De mãos vazias caradepau sem pudor
Chego na carruagem de luxo e pranto
Ostento riqueza e quimeras a chorar
De areia fiz meu castelo a desabar
Calado, triste escondo meu grito
De socorro d’alma clama o espírito
Louvando a Deus na beira do mar.

 

Na festa do casório foi toda gente
Do pau oco santo e padre tinha mil
Ladrão, bêbado, e a moça que pariu
A Madame com a empregada se uniu
Peão, pobre e patrão frente a frente
Delegado e juiz sem ninguém condenar
Doutor de lei, de construir e de curar
O povo todo a dançar e sorrir
De muito cantar, comer, beber e curtir
Um galope de dez na beira do mar.

Interregno

Um quadrão hendecassílabo – ABAB.

Sois de ontem

Homens! Que interessa se pré-históricos,
Modernos, contemporâneos, medievais?
Que interessa? Sois de ontem, retóricos
Destes pobres dias na terra, que levais?

Ah! peregrinos, sem permanência
Pura vaidade, como relva secando
Um sopro, um Ai! Esqueceis a essência
Pó! Somente pó e não-matéria formando.

Sangue e carne, ossos e ligas,
Os vermes comem, que resta enfim?
Luzes do tempo, memórias, vigas
Proles, histórias, fatos feitos, sim.

Transformações! Interrelações
Escritas ou não, vozes em canto
Intra-conexões e peri-percepções
Nada sabeis, sobre tudo, no entanto.

Anos de chumbo

OITAVA (Hepta – 2 e 7)

Memórias dali mentimos
Fantasmas dos quais fugimos
Tratados que não cumprimos
Possíveis dores restam
Malucos sobre a mesa
Fascínoras moem a presa
Conluio não é surpresa
Pressentem os que protestam

Era tempo de ditadura
No país todo uma loucura
Exército na rua e censura
Torturas, surras, porão
Estica em paus, toma choque
Aplicam atos a reboque
Recolhem às celas por toque
Brasil mudo sem razão

Arraes, Dom Hélder, Furtado
Nambucos bravos, legado
Fantasmas do tempo, exilado
Cada um lutou na surdina
A seu modo montaram retorno
Tal qual comida no forno
No tempo certo não sem adorno
Voltaram pra cumprir a sina.

Antigos aliados brigaram
Lacerda, Aleixo mudaram
De lado, contra o Ai5 lutaram
A UNE juntou mais de cem mil
Palavras jogadas ao vento
Foram-se as leis e o lamento
Do povo na rua sem assento
A morte foi o castigo vil.

Fardados governaram
A ferro e fogo queimaram
Artistas e artes clamaram
Dos anos de chumbo o fim
Famosos no exílio
Felizes, rancor e brilho
Desceram ao hades, o filho
A mãe, o pai e a pátria enfim

Na mesa, nas bancas, ardis
De malucos; entregam o país
Insano, o patrão a eles diz
Corruptos enrustidos
Safados, mas vão pagar
Políticos para prosperar
Das tribunas discursar
Até púlpitos corrompidos.

Herança porca, maldita
Esquerda parca, xiita
Política esquisita
Mais dívidas, corrupção
Delfim, Geisel, Figueiredo
Gradual e lento arremedo
Deságua no caos e medo
Ao FMI vendem a nação.

Martelo Agalopado com mote

MOTE
Com os olhos vendados caminhei
Sobre a prancha da nave-capitão.

Quando fui navegar pelos mares de lá
Escondi-me no porão de meus segredos
Como todo tolo orfão de medos
Minhas lágrimas no deserto, o maná
Denunciaram minha presença, e já
Bem sangrado no peito, a solidão
Conformar-se foi sim, matar o coração
Para além do desconhecido me atirei
Com os olhos vendados caminhei
Sobre a prancha da nave-capitão.

Atirei-me no vazio em busca de luz
Planei no abissal lodo do céu
Com a vida nau perdida ao léu
Deixei gozo e alegria nadarem nus
Desnudado de mim, tal qual avestruz
A cabeça cerrada no duro vão
Não escuto a dor nem a canção
Tão somente os gritos exclamei
Com os olhos vendados caminhei
Sobre a prancha da nave-capitão.

Tantos gritos gritei que a voz perdi
O silêncio das águas me engoliu
Duro sal congelou o sangue vil
Conservou pra sempre o que menti
E o que de bom fiz já esqueci
Os mortais como nós assim são
Pobres, tolos dispensam um milhão
Para troco de quê, não saberei
Com os olhos vendados caminhei
Sobre a prancha da nave-capitão

Se não sei a troco de quê eu vim
Para quê porque tanto fiolosofar
Se resposta alguma encontrará
Minha mente agora nula pra mim
Lar sem luz, de um céu sem fim
Bem melhor ter ouvido o coração
E amar muito mais a solidão
Haja vista que unir, sim, tentei
Com os olhos vendados caminhei
Sobre a prancha da nave-capitão

2 Comments Showing 50 most recent
  1. Fred Monteiro

    Zé Leão, esse cabra iluminado
    Pela vida estendendo a sua fama
    Com pincel fere a tela em que derrama
    Suas cores e dores com cuidado…
    E Doutor que ele é, predestinado
    A lutar contra o horror que a morte trás
    Enfrentando com garbo o Satanás
    Da maldita doença que incomoda
    Ele afasta e conclui a sua poda
    Jardineiro bondoso em prol da paz

    Ao caro primo Pediatra tal qual seu Pai, o bondoso Tio José, meu médico primeiro a quem muito estimo, que partiu tão cedo e de quem me lembro com saudade. Desculpe o improviso talvez nublado pelo sono que chega.

    • Anônimo

      Homem de Deus, Fred! Como é que eu nunca havia lido este seu comentário?
      Muito agradecido, primo! Saudades de nossas caminhadas.

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