A Night at the Opera – o melhor álbum do Queen

Os irmãos americanos Groucho, Chico e Harpo Marx lançaram um dos seus melhores filmes em 1935. Conta a história de um agente e dois amigos que tentam encaixar dois cantores clássicos novatos no restrito círculo da ópera italiana. Boa parte do filme se passa em um navio que está chegando à Itália, “o lugar onde se canta o dia todo e de noite se vai à ópera”.
Bem, o que isso têm a ver com a banda inglesa Queen?
Consta que Roger, John, Brian e Freddie um dia assistiram a este filme e perceberam como o título do filme se encaixava com a estética das músicas que eles estavam compondo para o quarto álbum do grupo, em fase final das gravações.
Afora essa referência, a figura de Freddie Mercury nos anos 80 bem que pode ter sido inspirada na clássica caracterização de Groucho Marx, de grossos bigodes e sobrancelhas pretos.

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A primeira música que ouvi do Queen foi Bohemian Rhapsody. Minha reação não foi diferente daquela que nove entre dez experimentavam ao ouvir aquela música – Que música doida! E sem sintetizadores? Os caras são geniais! Não entendi a letra! Tem uma ópera no meio? Demais! É rock, cara!

Dai que fiquei meses estudando a letra, ouvindo centenas de vezes aquela coisa toda, sempre com amigos, perguntando o que achavam, o que era aquilo, que belo solo de guitarra, enfim, esquecia que no álbum mais músicas esperavam para serem degustadas. Então, me contentei com a conclusão que era mesmo uma peça teatral, uma rapsódia, com inspiração italiana, um drama que contava em forma irregular, dividida em atos distintos, cenas de um assassinato que um jovem cometeu, meio que sem querer, e é tomado de culpa, ´julgado e condenado à morte apesar dos apelos por perdão feitos em sua defesa.

E deixei assim, até que cerca de um ano atrás ouvi os podcasts de Luciano Pires, no Café Brasil, descrevendo detalhes extraordinários sobre a composição dessa música, sobre Freddie Mercury, sobre o Queen. Recomendo fortemente que ouçam. Ouvir estes programas reacendeu em mim o fogo da paixão pelo Queen. E foi ai que ouvi com outros ouvidos e ajuda da internet as outras dez músicas do “A Night at the Opera”. Acompanhe esta viagem.

A começar da capa, toda branca com um desenho feito por Freddie Mercury cheio de simbolismos. Os leões representam o signo de Roger Taylor e John Deacon. O caranguejo é o símbolo do Câncer, Brian May no zodíaco. E duas fadas, uma verde e outra azul, aos pés do grande Q, simbolizam o próprio Freddie, que era virginiano. A coroa da rainha está em chamas e uma ave Fênix abre suas asas sobre o Q e os quatro elementos desafiando o fogo.

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Capa digna dos melhores LPs, com encarte contendo toda ficha técnica do disco e as letras das músicas. Uma beleza ilustrada com fotos coloridas da turnê mais recente, pelo Japão, Europa e EUA. Um investimento de mais de 40 mil libras, em quatro meses de gravação, mixagem e finalização. As gravações foram feitas em seis estúdios diferentes, por vezes com cada um dos membros em um estúdio para depois juntar tudo. O investimento feito pelo novo estúdio e novos produtores (EMI, com Roy Thomas Baker e Mike Stone como gerentes) foi um tremendo sucesso em todos os níveis.

No início de 1975 eles conseguiram, com a ajuda do advogado e empresário de Elton John, se livrar das garras do Trident Studio e dos sanguessugas Norman e Barry Sheffield que se juntaram a Jack Nelson para tirar tudo da banda. Terminaram a turnê com dívidas e, apesar de serem relativamente conhecidos na Europa, apostaram todas as fichas neste quarto disco. Eles registraram no site oficial: “Had it failed, it is entirely feasible that the band would not have survived”. Por tudo isso não é à toa que a primeira música do álbum, “Death on two legs” , seja claramente dedicada aos gerentes do Trident e a Jack Nelson. Aliás, apesar de Norman Sheffield negar que a letra da música foi endereçada a ele, entrou com um processo por difamação contra o Queen, o que resultou em um acordo extrajudicial.

A música é um rock pesado, com a delicadeza do piano e a guitarra marcante de Brian May, além de vocais afinadíssimos, corretos e uma bateria tecnicamente perfeita, variando o andamento da música. Freddie Mercury disse que esta foi a letra mais agressiva e ferina que fez. Trocou as palavras várias vezes afim de evitar censura e problemas nos shows. É uma das músicas menos executadas ao vivo. Entre outros versos, destaco “Feel good? Are you satisfied? Do you feel like suicide? (I think you should) Is your conscience all right? Does it plague you at night? Do you feel good? Feel good?” (E ai? Tá satisfeito? Sente vontade de se matar? (acho que deveria) Tá de consciência tranquila? Ou fica atormentado à noite? E ai? Tudo bem?). Ódio para abrir um álbum. Algo incomum. No mundo dos negócios da arte, coragem para xingar o ex-empresário é coisa rara. A estrofe dos xingamentos é genial no ritmo, na métrica, na rima. Nem posso traduzir, mas sinta:

Kill joy/ Bad guy/ Big talking/ Small fry

A segunda música (“Lazing on a Sunday afternoon”) é a mais curta de toda carreira do Queen. Uma brincadeira, como se diz, um “vaudeville”. Freddie Mercury disse que foi um desafio escrever sobre coisas que gostava de fazer, e o fez pontuando uma semana de um jovem típico londrino. Trabalhar na segunda de manhã, lua de mel na terça, andar de bicicleta na quarta à noite, dançar valsa no zoológico na quinta, na sexta vai pintar no Louvre, agitar no sábado à noite e preguiçar no domingo à tarde. Risível. Brincante.

A terceira! Ah! a máquina dos meus sonhos. Roger Taylor da bateria comanda o vocal de “I’m in love with my car”. Um clássico. A voz rasgada, paixão por pistões e carburadores, o motor brilhante. Pegar na direção e sair estrada afora ouvindo o ronco do motor… E termina assim: “When I’m cruisin’ in overdrive/ Don’t have to listen to no run of the mill talk jive… string back gloves in my automolove.” (Em velocidade de cruzeiro/ Não preciso ouvir bobeira nem conversa de jazz… guardo minhas luvas de couro no meu companheiro). Os solos de guitarra são fantásticos e o baixo dá o tom gritado dessa paixão de dez entre dez garotos.

Em qual outro grupo você vê um baixista-cantor-compositor-letrista? Pois John Deacon trouxe “You’re My Best Friend” para este álbum antológico. Música dedicada à esposa, que todo marido poderia cantar pelo menos uma vez na vida para a sua própria. Uma das mais belas baladas-rock de todos os tempos. E o baixista não toca baixo nessa música, e sim um piano elétrico, veja no vídeo oficial. Freddie Mercury não gostou.

Brian May também contribuiu para derrubar o mito de que o Queen foi a banda de Freddie Mercury. Compôs o magnífico folk-rock ” ’39”. A letra não é fácil de entender, mas o Brian May explica em parte: – é uma viagem no tempo-espaço que acontece antes da segunda guerra mundial e termina muitos anos depois. Os viajantes não envelhecem mas ao regressarem encontram a terra de seus netos devastada pela guerra. E não podem voltar para onde foram em sua nave. As vozes do refrão podem ser de alguma mulher idosa ainda viva que aguardava o retorno dos viajantes escrevendo cartas na areia. Duas curiosidades sobre esta música: – Brian May desafiou John Deacon a tocar um baixo de braço duplo e o baixista em poucos dias conseguiu o instrumento, aprendeu a tocá-lo e encarou o desafio. A outra: – Em 1977 o Queen foi convidado por Groucho Marx para visitá-lo em sua casa de Los Angeles. Lá o grupo cantou ” ’39” à capela para o anfitrião. Cinco meses depois o caçula dos irmãos Marx faleceu.

Outra de Brian May, “Sweet Lady” é um rock pesado bem convencional, com solos extraordinários em dueto de Deacon e May. É o ponto fora da curva do álbum, em minha humilde opinião.

“Seaside Rendezvous” volta com aquele espírito brincalhão do Freddie Mercury e seus valdevilles. Na verdade é uma referência direta ao ragtime dos anos 30. É uma das poucas que Brian May não participa e nunca foi tocada ao vivo. Retrata os encontros de verão na beira-mar do Mediterrâneo tão comum nos anos 20 e 30 do século passado. Este vídeo é bem divertido, quer ser minha Clementina?.

O Lado B do álbum começa com uma paulada. A irmã gêmea de “Bohemian Rhapsody” em seu estilo operístico é “The Prophet’s song”. Escrita por Brian May e, segundo o próprio, inspirada por um sonho e pela história bíblica da arca de Noé, a música mais longa do álbum começa e termina com o uivo de um vento e cordas dedilhadas por May de um instrumento japonês. É nesta música que está um dos melhores vocais concebidos por Freddie Mercury, a capella, bem no meio da música, polifônico, um coro de anjos advertindo todos os povos da terra a ouvirem e obedecerem a voz do profeta. Épica, a frente do seu tempo, a música tem a força do rock progressivo como estrutura. A melodia lembra as composições do oriente médio. É simplesmente perfeita. Não deixe de escutar agora.

Como se não bastasse tudo que este álbum já mostrou até aqui, eis que surge uma das mais famosas músicas do Queen, talvez a mais cantada, especialmente pelos brasileiros. No Rock’n Rio de 1985, o público cantou a música completa, para admiração de Freddie Mercury (é possível ouví-lo comentar com Brian “They sing very nice”), acompanhado por Brian May ao violão. No disco de estúdio piano e harpas embalam o vocal impecável e clássico de Freddie Mercury, autor da letra, compositor e arranjador. Dizem que ele escreveu esta canção para Mary Austin, grande amor de sua vida que havia rompido o romance em 1975, apesar de continuar amigo dele até sua morte. A segunda melhor balada-rock de todos os tempos, atrás somente da quarta faixa deste disco fenomenal.

A grande surpresa do álbum vem antes da mais famosa. A surpresa é que “Good Company” não tem participação de Freddie Mercury. Música e letra de Brian May, inspirada na história de vida de seu pai, é marcada pelo ritmo havaiano do Ukulelê com um toque de jazz nos metais simulados com as guitarras de Brian.

Chegamos ao clímax do melhor disco do Queen. “Bohemian Rhapsody”. Se você já ouviu o podcast de Luciano Pires, continue aqui comigo. Senão vá lá em cima e ouça. Depois volte. Tem mais aqui. Reveja o vídeo oficial da música. Quando ouvi essa música pela primeira vez a introdução, a balada inicial e o coro me encantaram tanto que nem percebi o rock pauleira da quarta parte, fiz uma ponte mental com o final semelhante ao início. De tal forma que um primo, alguns dias depois me perguntou sobre o dueto baixo-guitarra. Quando? Só tem piano e o solo de guitarra, um dos mais lindos que já ouvi. Na parte do rock pesado. Que pesado? Ouvi de novo, claro. E tomei um susto. Depois de três ou quatro vezes só ouvindo, é que resolvi ler a letra. A história de um menino que matou um homem? Bem, o resto você já sabe, ou faz ideia. Só quero acrescentar uma coisa. Eu não sabia que nos shows o Queen não fazia a parte do coro ao vivo, que usavam uma gravação. Então, assistindo ao Rock’n Rio 1985, confesso que fiquei decepcionado. Sempre achei que eles poderiam ter bolado uma forma de fazer ao vivo, mas sei lá, é tão perfeito o trabalho de estúdio do Freddie Mercury que talvez ele nunca tenha se permitido tentar. Porém a London Symphonic Orchestra fez, quer ouvir?

Para terminar, uma opinião bem pessoal sobre o nome da banda e os acordes do hino britânico no final deste disco e de alguns shows. Discordo que seja ufanismo, arrogância, adulação ou sei lá mais o que disseram nessa linha. Eu acho que é pura ironia, eles não estavam nem ai para a rainha da Inglaterra, sabia?

 

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