Eu vi Belchior na TV

Belchior caminhava de um lado para outro, mãos dadas com a esposa. Entrou e saiu de hotel. Sabe-se lá para onde foi depois das câmeras desligadas. Carregavam somente uma maleta. O sinal está fechado para eles.
Eles venceram?
Belchior apareceu para mim aos quinze anos. 1976. Férias de verão. Praia de Boa Viagem, mesas de bar num posto de gasolina, depois da manhã inteira azarando as meninas na beira do mar. Ele dizia “…Mas trago de cabeça uma canção do rádio / Em que um antigo compositor baiano me dizia /Tudo é divino /Tudo é maravilhoso/ … Mas sei que nada é divino, /Nada, nada é maravilhoso, /Nada, nada é secreto, /Nada é misterioso, não… (Apenas um rapaz latino-americano, Alucinação, 1976)”. Eu cutucava o primo, ouviu o que ele disse? Quem é esse antigo compositor baiano? Caetano? Mas Caetano não é antigo. É ironia. Pra quem tem 29, ter mais de 30 é velho.
Noutra música lançava frases, referências a coisas que eu ouvia em casa, de meu irmão, e não entendia… “like a Rolling Stone”, “Black bird, black bird, o que se faz?… raven never raven, raven never raven… o passado nunca mais”. E nós – ele tá falando do conjunto de rock do Mick Jagger. E quem é Poe, o poeta louco americano? Sei lá.

Um breve parêntesis. Procurei dias depois, Edgar Allan Poe (1809-1849), The Raven. Não entendi nada até assistir ao filme “O Corvo”, de Hitchcock, dez anos depois. Encontrei hoje a tradução para o português por Fernando Pessoa, que maravilha! Leia aqui.

Belchior deu um nó na minha cabeça. Jogou uma pá de racionalismo nas minhas fantasias de menino. Enxerguei que não viveria o sonho “hippie” de meus irmãos mais velhos, nada de pé na estrada, dedo em V, amor e paz. Simplesmente por que Belchior mostrou que este sonho tinha acabado, agora eles viviam como nossos pais. Os Novos Baianos, Mutantes e Rita Lee entraram no sistema. Tommy abriu os olhos e enxergou a realidade. Passei a ouvir o Queen, aquele álbum branco, o clássico “The night at the Opera” (este é assunto de outro post).

Aos poucos, as citações de Belchior em Alucinação (você pode ouvir o álbum completo aqui) foram me guiando nas leituras e músicas para ouvir, filmes para assistir. Por exemplo, na faixa-título, ele diz:

“Eu não estou interessado em nenhuma teoria / em nenhuma fantasia / nem no algo mais / nem em tinta pro meu rosto / oba oba, ou melodia / para acompanhar bocejos / sonhos matinais / eu não estou interessado em nenhuma teoria / nem nessas coisas do oriente / romances astrais / a minha alucinação é suportar o dia-a-dia / e meu delírio é a experiência / com coisas reais

. Larguei O Pequeno Príncipe e Fernão Capelo Gaivota. Procurei Nietzsche, Dostoievski, Charles Baudelaire e Cem anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marquez, que passou a ser meu livro de cabeceira até ser substituído por um Manual de Patologia Geral e o Atlas de Anatomia de Grey. Em outras estrofes, o autor sugere cenas urbanas, como retalhos de filmes e encontrei alguns: “A Dama do Lotação”, com a musa Sonia Braga, roteiro de Nelson Rodrigues; “Toda uma Vida”, de Lelouche; “Todas as mulheres do mundo”, com Flávio Migliaccio, Joana Fomm, Marieta Severo, Paulo José e Leila Diniz, um filme-crônica muito interessante; e outro baseado na peça de Nelson Rodrigues, “Toda Nudez Será Castigada”, de Arnaldo Jabor.

Outra, “Sujeito de Sorte”, tem versos tão fortes e perenes como “tenho sangrado demais/ tenho chorado pra cachorro / ano passado eu morri/ mas esse ano eu não morro”, que foram apropriados por Zé Limeira e citados por Zé Ramalho, cantados pelos quatro cantos do mundo, e grudam na mente. Deviam ser o hino de toda festa de final de ano.

“Não leve flores para a cova do inimigo” foi como um mantra, um conselho que trago até hoje no meu coração, “..que as lágrimas dos jovens são fortes como um segredo/ Podem fazer renascer um mal antigo…”

Na “Fotografia 3×4”, os versos “A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia/ E pela dor eu descobri o poder da alegria/ E a certeza de que tenho coisas novas, coisas novas pra dizer…” me aproximou do poeta-cantor Belchior e continuaram comigo quando ainda jovem, pela lei da gravidade, cai do Recife e fui viver na grande cidade.

E como explicar, tempos depois, o sumiço do amigo para somente vê-lo agora, fugidio? Ele próprio profetizou na letra de “A Palo Seco” e no epílogo do melhor disco de sua carreira, “Antes do Fim”.  Não é moda, ele andava meio descontente, gritando em português, queria o canto torto, feito faca, cortando a carne da gente: “De olhos abertos lhe direi: – Amigo, eu me desesperava! … Um tango argentino me vai bem melhor que um blues…”. Depois de dizer estas coisas, Belchior ainda compôs boas músicas, como “Divina Comédia Humana”, “Paralelas”, “Comentários a respeito de John”, e “Medo de avião”. Entretanto, nunca mais lançou um álbum como Alucinação.

Separou-se da primeira esposa e dos filhos (um casal) em 2005 e sumiu. Em 2009 apareceu de surpresa em Brasília, num show do Tom Zé, e sumiu. Em agosto do mesmo ano deu uma entrevista para um programa de domingo, lá do seu auto-exílio, no Uruguai, e sumiu.  Continua vagando pelo sul da América do Sul. Abandonou carros, dívidas e seu ateliê. Ele disse: “Não tomem cuidado, não tomem cuidado comigo, pois não sou perigoso, viver é que é o grande perigo”.

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