Meu mundo perfeito

Só o que pode ser

É

Uma lira deitada que não aceita dedos. Cordas amadas e tocadas somente por martelinhos acolchoados. Acordes e ritmos de mãos e pés harmonizados por Mozart, Bach ou Tchaikovsky.

O tempo do tempo certo, nem hoje, nem ontem, nem amanhã. Embaixo do céu há tempo para tudo, até para a perfeição. Qual tempo, não sei. Apenas que é o tempo de ser.

As pessoas que aspirando, pedem conselhos. As pessoas que ouvindo, escutam. As pessoas que escutando, aprendem. As pessoas que aprendendo, ensinam. As pessoas que ensinando, aconselham.

Os lugares que unem o concerto, o tempo, as pessoas.

A união que faz surgir o silêncio dos campos vaporosos, mugidos, mosquitos, zumbidos, latidos, miados.

A água que reflete a folhagem como uma renda negra.

A água que reúne o musgo e o sol, o frio e o calor.

A água que dá vida à sopa primordial.

A água que conserva a vida sob o sal.

A água que corre ao encontro de outras águas.

O sopro que paira sobre todas as águas.

O vento que sopra as narinas de todos os seres, até daqueles que narinas não têm.

Não é

O paraíso antes da mordida de Adão no fruto proibido. Onde não haveria Mozart, nem Bach, nem Tchaikovsky.

Agora.

As pessoas que desejando, buscam por si. As pessoas que buscando, pisam. As pessoas que pisando, machucam. As pessoas que machucando, matam. As pessoas que matando, desejam, apenas.

Os lugares que espalham as pessoas, as notas, as horas.

A dispersão que provoca barulho de espectros negros correndo pelo jardim.

A terra seca que mata o gado.

O pó que entope o ralo.

A água que espirra na mesa e desbota as poltronas.

As janelas fechadas em dias de chuva.

O ar sem brilho e a estrada sem pôr do sol.

O brilho de uns às custas da sombra de outros.

O desprezo pelo barro e pelos vasos.

A ausência do sopro e das mãos do oleiro.

O Jardim de Monet

“A Ponte Japonesa” – Inverno de 1899. As nenúfares da casa de Giverny floresciam. Monet via realizar-se o projeto de dez anos, desde que adquirira a propriedade e contratara uma equipe de jardineiros para montar o cenário daquele que seria seu atelier ao ar livre até os últimos dias de sua vida. Existe a luz, mas o céu não se vê. Os olhos pousam serenos sobre a água. As plantas exóticas brilham em tons de violeta. As sombras sutis da ponte. As flores evitam a sombra. A água reflete o verde ao redor. A ponte tem arco japonês. O velhote, como ele mesmo dizia, queria reproduzir na tela o que sentia ao construir e contemplar seu éden. Seu paraíso pré-adâmico não era figura para homens. Fora feito por homens, mas não era para eles. As flores não eram dali. Foram trazidas por homens, sim. De longe, do Japão, o artista e arquiteto mandou trazer. Também as Íris do oriente próximo, os salgueiros da África setentrional, as rosas holandesas e os agapantos, únicos habitantes locais. Aliás com os moradores de Giverny teve que negociar o curso do Ribeiro RU, represado pelo gênio criador do artista para compor seu lago. O gênio que criara a nova ordem do impressionismo francês transformava-se agora na velhice no gênio criador do expressionismo abstrato. Cada vez mais fechando o quadro mais perto das flores, desfocava-as e dava-lhes um brilho ainda maior.

Verão de 1924. Monet estava quase cego e recuperava-se de cirurgia quando passou a dedicar-se a suas duas últimas exposições, uma em Petit com uma retrospectiva de toda sua obra, e a maior de todas, em Paris, na Orangerie, dedicada às nenúfares. Esta exposição só foi inaugurada em 1927, meses depois de sua morte. Um dos últimos quadros de Monet, chama-se justamente da mesma forma que um dos mais célebres de seu jardim – “A Ponte Japonesa” (1924).

A ponte está coberta por uma armação de madeira. Na cobertura da ponte foram plantadas glicínias que ao longo dos anos emolduraram a cena. No verão os salgueiros estavam amarelados e as nenúfares já eram poucas. A abstração surge na mente na Monet como a imagem que seus olhos podiam ver. As luzes e cores ainda assim são quentes, contrastam e harmonizam.

O jardim japonês de Monet, sua obra-prima no chão da terra, é a prova viva do poder criativo do homem, efêmero e sensível à senitude, mas as telas de 1899 e 1924 são o testemunho, até hoje de que a arte pura vive muito mais do que os artistas.

Carta Patente

26 de Junho de 1879, Lugar de Chancidro, Freguesia de Moreira, Concelho da Maia, Distrito do Porto, Portugal.

Albino Moreira Cazeira nasceu, meu bisavô materno. Um mês antes de completar 20 anos, casou-se com Anna Rosa da Silva Moreira. Os dois primeiros filhos do casal nasceram ainda em Portugal, no lugar de Santa Luzia, nos anos de 1899 e 1901. Eram Joaquim e Francisco ainda menores de três anos de idade quando o casal embarcou para o Brasil. Perguntar-se os motivos para tal decisão é inevitável. Consta que o pai de Anna Rosa era marceneiro de prestígio. Albino tinha habilidades de ferreiro, trabalhava com o pai, dono de uma pequena indústria de artefatos em ferro. O Distrito do Porto era berço da oposição ao Governo ditatorial do 33º e penúltimo Rei. Portugal foi governado por Carlos I de 1889 até 1908. O reinado de Carlos I foi marcado por seguidas dissoluções da Assembleia Nacional. Portugal estava alinhada com o nacionalismo que nascia na Alemanha e cogitava vender as colônias para fazer face ao pagamento de sua enorme dívida externa que engessava o desenvolvimento do país. Logo no início do século XX desenhava-se uma revolução constitucionalista, falava-se no fim da monarquia, mas os jovens não viam perspectiva de que estes fatos ocorreriam em breve tempo. Se o motivo não foi político, terá sido idealismo? Contribuir para o crescimento da ex-colônia? Maior oferta de oportunidades? Enfim, vieram.

 

Aqui moraram no Rosarinho, depois Madalena, Rua da Aurora, Santo Amaro e finalmente Olinda, na Avenida Sigismundo Gonçalves até a morte de Albino, aos 62 anos de idade. Antes em cada casa que moraram nasceu um ou mais filhos num total de dez brasileiros gerados por Albino e Anna Rosa. Na Rua da Aurora foi onde nasceram minha avó Lucilla Moreira, em 02 de fevereiro de 1913 e mais três filhos. Tia Hilda, a caçula, autora das anotações que me serviram de referência, nasceu em 05 de agosto de 1918. Perderam o segundo filho, Francisco, e a quinta, Maria do Patrocínio, aos 4 anos de idade. Carminda, a 8ª filha, morreu com 1 ano de idade. Armando, o 10º filho, com menos de um ano. O quarto filho, Albino “Bidú”, morreu de Tifo aos 28 anos. O terceiro, José Luciano, faleceu aos 53 anos, e o primogênito, Joaquim faleceu em 1958, aos 59 anos de idade. Anna Rosa faleceu em 1959, aos 79 anos de idade. As pessoas nasciam e morriam em casa naquele tempo, ou pelo menos quase todas as pessoas registradas no caderno de Tia Hilda até a geração dos netos que passaram a nascer em Maternidades. Foram os filhos da geração de Albino e Anna Rosa: Joaquim (1899 – 1958), Francisco (1901 – 1905), José Luciano (1903 – 1956), Albino Clodualdo (1904 – 1932), Maria do Patrocínio (1906 – 1910), Aurora (1907 – 1990), Lucrécia (1909 – 1993), Carminda (1911 – 1912), Lucilla (1913 – 1996), Armando (1914 – 1915), Irene (1916 – 1997), e Hilda (1918 – 1996).

A insustentável leveza de ler

Ou, na impossibilidade de ser lido

Com tanta dificuldade em se fazer lido, fico pensando no problema proposto em um artigo que li no New York Times, publicado no último sábado e que vem bem a calhar para reflexão nesta semana (para quem se interessar no artigo completo está em http://opinionator.blogs.nytimes.com/2013/06/01/does-great-literature-make-us-better/?hp).
Ler boa literatura de ficção, os grandes romances de Proust e Dostoiévsky, as grandes epopeias de Homero, os ensinamentos de James Joyce, a sabedoria popular de Ariano Suassuna, Jorge Amado e Machado de Assis nos tornam pessoas melhores? Você pode afirmar que seu amigo inteligente, sensível, sociável, carismático, bem sucedido tornou-se assim por causa, pelo menos em parte, da sua vasta cultura literária? Ou será que por ser inteligente, sensível, sociável, carismático e bem sucedido ele sempre encontrou prazer em ler as grandes obras da literatura?
Os poucos experimentos que tem sido feitos nesta área da neurolinguística e da psicologia revelam que os efeitos de uma leitura sobre nossas sensações, atos e pensamentos dura curto tempo. Já ouvi muita gente dizer que ler Proust ou Dostoievsky, ou mesmo Nietzsche mudou sua vida para sempre. Puro exagero? Modo de falar?
É inegável que o consumo em massa de literatura fácil muda certos costumes e práticas, mas também aqui vale uma ressalva. Não seriam estes textos de fácil leitura, o retrato da sociedade e estariam apenas difundindo e tornando públicas práticas privativas de certos grupos e pessoas?
Em o “Conhecimento do Amor” de Martha Nussbaum, a autora argumenta que as mãos de um competente escritor torna os cenários e personagens mais educativos para a moral do que a realidade das salas de jantar, das bancas de escolas ou igrejas. Isto ocorreria por que a alta literatura nos afastaria de questões morais menores para tomarmos as decisões mais fundamentais de nossa existência. Já Flaubert, em “Educação Sentimental”, ensina que são as interações entre as pessoas e não o que as pessoas leem que moldam o caráter, ou que poderiam moldá-lo. Na Bíblia, o caráter é moldado pela ação do Espírito Santo de Deus, iluminando os seus leitores para ser o vaso que o Oleiro quer que ele seja, do ponto de vista moral e social. É portanto, uma questão de fé.
Enfim, pelo menos até agora, do que sabemos pode-se inferir que a leitura de grandes obras recompensará o leitor com senso estético, mas não o tornará um ser mais iluminado do que os outros que não leram os clássicos.