Consequências a longo prazo de maus tratos na infância

Consequências a longo prazo de maus tratos na infância

Diário de Pernambuco

Publicação: 27/05/2010 19:36

Foi autuada na tarde desta quinta-feira (27) na Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente (GPCA) uma mãe acusada de tentar matar a própria filha de cinco meses. De acordo com informações do delegado Jorge Ferreira, que registrou o caso, funcionários do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC) denunciaram à polícia que a mãe tentou sufocar a filha, que está internada na unidade de saúde há cerca de 30 dias em decorrência de catapora. A Polícia Militar (PM) foi acionada e encaminhou a mulher até a GPCA.

 

Segundo a visão contextual do desenvolvimento infantil o ambiente é fator primordial na determinação do conhecimento, atitudes e comportamentos da criança. Desde Vygostky, a forma que os adultos interagem com as crianças influencia a aquisição de valores e habilidades essenciais. Em nossos dias, Brofenbrenner aprofundou essa visão cultural do desenvolvimento infantil, inserindo-o numa série de sistemas complexos e interativos. Quando uma criança até 3 anos sofre qualquer tipo de agressão ou violência, os danos podem não ser notados de imediato. Muitas vezes somente anos depois surgem manifestações evidentes.

É o caso da mãe e da filha da notícia acima. Vou chamá-las Maria e Joana, não por acaso. A história se repete. Veja bem: Maria desde que nasceu foi rejeitada e viveu de abrigo em abrigo, abandonada e agredida pelos pais usuários de maconha, alcoolistas e marginais. Cresceu, milagrosamente sobreviveu, e aos 12 anos foi estuprada pelo irmão mais velho, o qual não só usava como vendia maconha, viciado em crack e ladrão, única pessoa em quem ela confiava (!). Continuou nas ruas, sendo apreendida diversas vezes por pequenos delitos. trivia questions Teve o primeiro filho aos 15/16 anos. Diz ela que nunca fumou nem cheirou nada. O pobre e coitado primogênito de Maria agora tem 2 anos e está num orfanato, pois nas indas e vindas ao reformatório tiraram o menino da Maria. Engravidou de novo e nasceu em dezembro a Joana. Segundo Maria, “em casa” seu irmão, misto de pai-marido-abusador batia nela com frequência. Joana em meados de março adoeceu com coqueluche. Durante a internação no setor de infectologia do Hospital Osvaldo Cruz, Maria sentiu-se acolhida, tratada com respeito e atenção como nunca. Ela não queria sair do hospital. Afinal ali tinha comida todo dia e nada de violência. Foi vista’ usando roupas de crianças com outras doenças infecciosas em Joana. Não deu outra. Alguns dias depois de receber alta pela coqueluche, Joana teve que voltar por estar com Catapora. Provocada por Maria? Não sei. O fato é que na véspera de receber alta, Maria foi flagrada tentando sufocar Joana. Não creio que ela a quisesse matar no ato em si de sufocar. Não a sufocaria até a morte. Ela tentava uma nova situação médica que obrigasse a filha a ficar internada. Obviamente isto é tão hediondo quanto a tentativa de matá-la, pois ambas poderiam levar ao mesmo fim.

A história se repete, tende a se repetir pelo menos, se nenhuma intervenção for feita no contexto da criança…Maria violentada, abusada, rejeitada, agride Joana que, se sobreviver, pode vir a ser abusada e rejeitada, ciclo que perpetuará a tragédia.

O jeito que temos de quebrar esta roda horripilante é quebrar o elo relacional doentio entre mãe e filha. Trocar de microssistema para criar novas perspectivas e esperanças. Claro, não se pode reduzir problema tão complexo a uma solução assim. Ainda permanecem os meso, exo e macrossistemas atuando e interagindo com a menina que muda de órbita (entenda-se mudar de órbita como referência a tirar a criança do ambiente hostil e colocá-la em nova realidade favorável).

O cérebro de Joana já sofreu dano, certamente. Como este dano se manifestará no futuro? Depende do que for feito por ela de hoje em diante. Acompanhamento intensivo com profissionais capacitados pode ser decisivo. Um novo lar, repleto de amor e respeito, também. Que o diga Nathália Just Teixeira, 25 anos, ferida a tiro pelo pai aos cinco anos de idade, o qual no mesmo ataque de fúria matou a ex-esposa e também feriu gravemente o filho e o ex-cunhado (Folha de São Paulo, 30/05/2010, p. C6). Nathália conta sua história e diz: “- O apoio familiar foi muito importante para eu suprir essa ausência (da mãe). Eu tive o amor de mãe graças aos meus avós (maternos) e meus tios, que viveram para nós. (…). Nada nos faltou. Eles nos preservaram e, por isso tive uma vida feliz,…”

Estudos mostram que danos mínimos até 3 anos de idade provocam queda de desempenho escolar e podem estar relacionados com aparecimento de transtornos de comportamento, entre eles o deficit de atenção e hiperatividade na idade escolar.

Portanto, não se pode fechar os olhos e fingir não saber o que acontece com crianças vítimas de maus tratos. Somos responsáveis, cada um de nós, pelo futuro destas crianças. Abrigos e instituições são passo intermediário, mas a sociedade deve assumir mais integralmente a recuperação destas crianças quando faltar familiares que o possam fazer.

 

 


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  1. car rent Post author

    Mil vezes ser filho de intelectuais ricos do que ter pais pobres e ignorantes. Nutrição inadequada, infecções de repetição e indigência cultural comprometem o desenvolvimento do cérebro da criança.

    Vamos à pobreza.

    O cérebro é o órgão que mais consome energia. No recém-nascido, 87% das calorias ingeridas são consumidas por ele. Esse número cai para 44% aos cinco anos; 34% aos dez; 23% nos homens e 27% nas mulheres adultas.

    As infecções parasitárias interferem no equilíbrio energético, porque prejudicam a absorção de nutrientes e obrigam o organismo a investir energia na reparação dos tecidos lesados e na mobilização do sistema imunológico, para localizar e atacar os germes invasores.

    As diarreias na infância têm custo energético especialmente elevado. Antes de tudo, por causa da alta prevalência: estão entre as duas principais causas de óbitos em menores de cinco anos; depois, porque dificultam a absorção de nutrientes.

    Quadros diarreicos de repetição durante os primeiros cinco anos de vida podem privar o cérebro das calorias necessárias para o desenvolvimento pleno e comprometer para sempre o quociente intelectual (QI).

    Diversos estudos demonstraram que infecções parasitárias e quociente intelectual trilham caminhos opostos. Um deles, realizado no Brasil pelo grupo de Jardim-Botelho, mostrou que crianças em idade escolar com ascaridíase apresentam performance mais medíocre nos testes de capacidade cognitiva. Naquelas parasitadas por mais de um verme intestinal os resultados são piores ainda.

    A hipótese de que infecções parasitárias prejudicariam as faculdades intelectuais explica por que a média do QI aumenta rapidamente quando um país se desenvolve (efeito Flynn), por que o QI é mais alto nas regiões em que o inverno é mais frio (menos parasitoses) e por que nos países pobres os valores médios do QI são mais baixos.

    Agora, à ignorância.

    Aos três anos de idade, o cérebro da criança atingiu 80% das dimensões do adulto. Nessa fase, já existem 1.000 trilhões de conexões entre os neurônios (sinapses), aparato essencial para que o desenvolvimento intelectual aconteça em sua plenitude.

    Dos 18 meses aos quatro anos de idade, a maturação do córtex pré-frontal acontece com velocidade máxima. Essa área, que coordena linguagem, resolução de problemas, comunicação, interações sociais e autocontrole, funções de altíssima complexidade, depende de estímulos cognitivos múltiplos e variados, para formar novas sinapses e reforçar a arquitetura das já existentes.

    Enquanto conversam, brincam, contam e leem histórias para os filhos, os pais os ajudam a construir as conexões necessárias para o pensamento bem articulado.

    O estresse causado por ambientes domésticos conturbados interfere com a construção de novas sinapses, deixando falhas duradouras no cérebro infantil.

    Estudos com ressonância magnética funcional mostram que existem diferenças marcantes entre as crianças mais pobres e as mais ricas, não apenas no córtex pré-frontal, mas também no hipocampo, área essencial para a memória e o aprendizado.

    Estrutura cuja característica fundamental é a plasticidade, isto é, a capacidade de formar novas conexões neuronais para suprir as que se perderam ou nem chegaram a se formar, o cérebro adulto poderá se recuperar mais tarde.

    A reconstrução, no entanto, será um processo trabalhoso, lento e imperfeito. Alfabetizar pessoas de idade, ensinar-lhes um novo idioma e a linguagem dos computadores é possível, mas não é tarefa simples.

    Sem minimizar o impacto da escolaridade e sua influência na formação do cérebro adulto, o papel da família é crucial. Vivam juntos ou separados, mães e pais que conversam, contam histórias, leem e criam um ambiente acolhedor promovem no cérebro dos filhos respostas hormonais e neuronais decisivas para o desenvolvimento pleno.

    No Brasil, existem 38% de residências sem saneamento básico. Quase metade dos bebês nascidos anualmente pertencem à classe E, que sobrevive com renda familiar abaixo de dois salários mínimos. Mais de 20% dos partos do SUS são realizados em meninas de dez a 19 anos.

    A esse caldo de cultura acrescentamos um sistema educacional de baixa qualidade.

    Dráuzio VArela, FSP, 21/09/2013

  2. car rent

    Parabéns pelas observações.

    Desigualdade entre seres humanos ao nível da dessemelhança, geração pós geração, é o caminho da violência, e muito provável escravidão.
    E estamos quase sempre ” dando de ombros”!

    • car rent Post author

      Tristes realidades.

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